segunda-feira, 16 de junho de 2014

Capítulo VI / CRESCIMENTO E MATURIDADE. "Criatividade e processos de criação.", de Fayga Ostrower.

"Quando mudam os comportamentos da criança e mudam as formas de expressão, essa mudança formal não se deve a intenções estéticas. Deve-se ao processo de crescimento e de desenvolvimento da criança, às suas relações afetivas com ela mesma e com o muno adulto, e à sua evolução para níveis de independência interior. Às idades subsequentes, digamos aos 2, 4, 7, 10 anos de vida, normalmente correspondem modificações na forma expressiva. Vale observar, porém, que até uma idade próxima à puberdade, as alterações na linguagem artística - tanto nos elementos usados como na maneira de composição - que ocorrem nas várias fases do crescimento infantil, são surpreendentemente similares em todas as crianças, não obstante diferenças individuais de temperamento e de sensibilidade. As alterações estilísticas pouco variam até de cultura para cultura. Poder-se-ia chamar a esse desenvolvimento quase que de estilo biológico." (pgs. 127/128)

"Se até aqui nos detivemos em alguns aspectos da criatividade infantil pretendíamos em realidade iluminar certos ângulos da criatividade adulta. A criatividade infantil é uma semente que contém em si tudo o que o adulto vai realizar. Interessam-nos as comparações com o mundo infantil para podermos enfocar mais claramente o início dos processos criativos e também o seu desenvolvimento sob determinadas circunstâncias culturais, mas, enquanto fenômeno expressivo, a criação tem implicações diferentes para a criança e para o adulto. Nas crianças, o criar - que está em todo o seu viver e agir - é uma tomada de contato com o mundo, em que a criança muda principalmente a si mesma. Ainda que ela afete o ambiente, ela não o faz intencionalmente; pois tudo o que a criança faz, o faz em função de necessidade de seu próprio crescimento, da busca de ela se realizar. O adulto criativo altera o mundo que o cerca, o mundo físico e psíquico; em suas atividades produtivas ele acrescenta sempre algo em termos de informação, e sobretudo em termos de formação. Nessa sua atuação consciente e intencional, ele pode até transformar os referenciais da cultura em que se baseiam as ordenações que faz e aos quais se reportam os significados de sua ação." (pg. 130)

"Na visão do potencial criador do homem como um potencial estruturador, propomos desvincular a noção da criatividade da busca de genialidade, de originalidade, e mesmo de invenção." (pg. 132,133)

"Os atributos de genial, original e inovador como qualidades que caracterizam a criação, nos foram legados pelo Renascimento. Adquiriram esse sentido valorativo quando, na época, a individualidade procurava sobrepor-se, socialmente, por seus próprios méritos à rígida estratificação medieval, onde a ascendência de classe ou de profissão determinava a posição social da pessoa. Há de se ver o quanto essa situação se modificou em nosso tempo. Ao passo que no Renascimento se avaliavam as qualidades extraordinárias de um trabalho realizado, sempre no domínio de uma técnica plenamente adequada ao que se almejava obter e à altura dos ideais da sociedade, hoje essas noções servem de programação de currículo: 'seja criativo', 'seja genial', 'seja original'. Propõe-se a genialidade como uma maneira de ser, como se o ser criativo fosse manipulável e redutível a comportamentos volitivos, e não fosse o próprio viver. O fato é que o excepcional é valorizado indiscriminadamente sob as mais diversas formas sociais (ou associais). Ao mesmo tempo, a excepcionalidade é usada como um parâmetro para aferir o desempenho criativo dos indivíduos. Num quadro cultural como o nosso, de condicionamentos massificados, só é criativo quem consegue ser 'genial' - não alguém que fosse espontâneo, autêntico, imaginativo, sensível; tampouco se concebe que o potencial criador do homem possa desdobrar-se no trabalho ou em função da maturidade alcançada, na visão generosa da convivência humana, pois a própria criatividade é considerada como algo inteiramente à margem do fazer natural." "Na visão do potencial criador do homem como um potencial estruturador, propomos desvincular a noção da criatividade da busca de genialidade, de originalidade, e mesmo de invenção." (pg. 133)

"Não deixa de ser significativo que em nossa sociedade se valorize justamente este aspecto da imaginação humana: o engenhoso, a inventividade intelectual que é relativamente desvinculada da emotividade e do envolvimento em nossa consciência. No presente contexto cultural, a descoberta da novidade passou a ser uma preocupação central, obsessiva até. É o novo, o inédito, o insólito que se procura, não a bem da humanidade e para satisfazer uma necessidade real, mas 'o novo pelo novo', a substituição apenas pela substituição. Numa excitação febril e espasmódica, em parte induzida e em parte já consequência de um processo que gira em ponto morto, é a substituição que substitui - como se substituir em si fosse valor de vida - a pesquisa, o questionamento, o próprio trabalho. É o novo, novíssimo, indubitavelmente melhor porque indubitavelmente mais recente. Qualidades cronológicas logo corroídas pelo tempo." (pg. 136)

"Assim, inventa-se uma criatividade que se condensa, prioritariamente, no ser jovem, transferindo-se para a faixa de adolescência o clímax da produtividade humana e o significado das concretizações de vida, com o maior descaso pelas potencialidades humanas mais amplas. Ressucita-se novamente a genialidade, só que dessa vez vestida com roupas jovens, como parâmetro de atividades e resultados criativos. Dispensam-se os processos de crescimento e de amadurecimento, os processos de identificação da personalidade, e dispensam-se os tempos internos como de somenos, supérfluos e inúteis para a vida. Em nosso contexto cultural, a maturidade é negada como um valor. Com isso riscam-se os níveis de conscientização espiritual que o homem pode atingir, as verdadeiras dimensões humanas, pois o entusiasmo idealista do jovem é uma coisa, será outra coisa quando esse idealismo, na maturidade, se converter em generosidade e amplitude de compreensão." (OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. pg. 138)

"Um Rembrandt, de talento invulgar, aos 18 anos já se estabelecendo como mestre pintor independente, pinta à maneira de Pieter Lastman (professor de Rembrandt e assim entrando para a posteridade). Ainda aos 30 anos, ou já aos 30 anos, quando se tinha tornado um pintor original e excelente, ao lado de outros pintores originais e excelentes de sua época, da estatura de um Rubens, um Frans Hals, um Vermeer, ainda não era 'Rembrandt'. Ainda por processos íntimos misteriosos, ele haveria de crescer e chegar a ser esse homem singular que conseguiu afirmar o sentido da vida, de infortúnios pessoais em seu caso, num vislumbrar de possibilidades espirituais tão extensas que vêm a criar a essência de um
a nova humanidade no homem. Sua solidão, Rembrandt conseguiu transformá-la em força interior, em compaixão e compreensão sempre mais ampla ao aceitar dentro de si a trágica dignidade do existir humano, esse existir-no-saber." (OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. pg. 139)

"Todavia, a equação preço = valor não funciona porque a própria equação - preço igual a valor - não existe. Preço não é igual a valor. Nada 'é igual' a valor. Só o valor é valor. As genuínas realizações humanas são valores. A começar pelos processos de crescimento e de maturação espiritual, tudo o que o homem tem de especificamente humano dentro de si, a compreensão, a inteligência, a generosidade, a ternura, o amor, o respeito, a dignidade, a coragem, a confiança, os relacionamentos afetivos de que o homem é capaz, os conhecimentos e os conteúdos espirituais, são valores. Sua criatividade e suas criações são valores. São valores de produtividade humana, valores de consciência. São intraduzíveis. Não têm preço. " (pg. 143)


É no processo de crescimento que o indivíduo se conhece. Nessa busca pelo conhecimento, reorganiza seu interior - conhecendo-se e transformando-se - e se potencializa em identidade participando responsavelmente na sociedade. Este processo de maturação é imprescindível para a criação, não havendo uma validade para esta evolução criativa perante a um estado de lucidez e saúde, podendo o indivíduo mesmo na velhice continuar seu desenvolvimento. Esta maturação criativa não se desassocia da espiritual, pois assim seria apenas uma invenção, uma inovação. Conforme criamos em dialógo com a nossa sociedade cultural, sofremos um processo predatório competitivo (uma vez que nossa cultura é capitalista e tem como lema a 'lei do mais forte') onde a juventude em sua recente experimentação de vida, vê-se obrigada a realizar grandes feitos tidos erroneamente como originais criações. A genialidade atrapalha o crescimento espontâneo a partir da tua exploração como meta impossível de ser atingida. Criação e genialidade são diferentes pois a segunda refere-se a casos muito específicos e quando tomados como exemplos, metas a serem alcançadas estrangulam o processo criativo pois este nada tem a ver com lugares a serem alcançados mas com o desenrolar natural e orgânico da vida em relação a si e ao outro. Criar é processual, dá-se ao longo da vida, volta-se para a conscientização.

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