quinta-feira, 12 de junho de 2014

INTRODUÇÃO. "A Estética do Oprimido.", de Augusto Boal.

"Mais lamentável é o fato de que também não saibam falar, ver, nem ouvir. Esta é igual, ou pior, forma de analfabetismo: a cega e muda surdez estética. Se aquela proíbe a leitura e escritura, esta aliena o indivíduo da produção da sua arte e cultura, e do exercício criativo de todas as formas de Pensamento Sensível. Reduz indivíduos, potencialmente criadores, à condição de espectadores." (pg. 15)

"As ideias dominantes em uma sociedade são as ideias das classes dominantes, certo, mas, por onde penetram essas ideias? Pelos soberanos canais estéticos da Palavra, Imagem e do Som, latifúndios dos opressores." (pg. 15)

"Existem duas formas humanas de pensamento - Sensível e Simbólico -, e não apenas esta que se traduz em discurso verbal." (pg. 16)

"Como todas as sociedades estão divididas em classes, castas, etnias, nações, religiões e outras confrontações, é absurdo afirmar a existência de uma só estética (...)" (pg. 16)

"(...) Só com os cidadãos que, por todos os meios simbólicos (palavras) e sensíveis (som e imagem), se tornam conscientes da realidade em que vivem e das formas possíveis de transformá-la, só assim surgirá, um dia, uma real democracia."  (pg. 16)

"Os humanos, como quaisquer animais, estruturam suas inter-relações segundo o poder que têm, dispõem ou conquistam (...) Conhecer a verdade é necessário para transformá-la." (pg 16/17)

"Há que se inventar seu antídoto: a Ética da Solidariedade, cuja construção terá que ser obra da incessante luta dos próprios oprimidos e não dádiva celeste." (pg. 17)

"No mundo real em que vivemos, através da arte, da cultura e de todos os meios de comunicação que as classes dominantes, com o claro objetivo de analfabetizarem o conjunto das populações, os opressores controlam e usam a palavra (jornais, tribunas, escolas...), a imagem (fotos, cinema, televisão...), o som (rádios, CDs, shows musicais...), monopolizando esses canais, produzindo uma estética anestésica - contradição em termos! -, conquistam o cérebro dos cidadãos para esterelizá-lo e programá-lo na obediência, no mimetismo e na falta de criatividade. " (pg. 17/18)

"(...) Por isso, os opressores lutam pela posse do espetáculo e dos meios de comunicação de massas, que é por onde circula e se impõe o pensamento único autoritário." (pg. 18)

"Palavra, imagem e som, que hoje são canais de opressão, devem ser usados pelos oprimidos como formas de rebeldia e ação, não passiva contemplação absorta. Não basta consumir cultura: é necessário produzi-la. Não basta gozar arte: necessário é ser artista! Não basta produzir ideias: necessário é transformá-las em atos sociais, concretos e continuados." (pg. 19)

RESUMO.

Se o indivíduo é cultural/sensível/consciente, é de fundamental importância que o mesmo perceba que esta tríade que o constrói é manipulada por um grupo dominante, oprimindo sua real potencialidade criadora. Este grupo dominante busca apoderar-se do controle absoluto. Não somos estimulados nem a pensar nem a criar. Somos adestrados a aceitar os padrões, os rótulos, os conceitos sem sequer questionar. Essa educação às avessas, essa analfabetização estética se dá pelo viés do uso coercivo dos meios de comunicação e através da palavra, do som e da imagem. Não basta saber ler e escrever quando se objetiva copiar. É preciso questionar, pensar, duvidar. É preciso abrir os olhos para se ver além. Para os dominates, a transformação não lhes é almejada pois não lhes faltam regalias e conforto. Os dominados precisam perceber que são oprimidos em função do bom viver desses opressores. Reagir. Reconhecer sua realidade a fim de transformá-la, buscando um viver e coexistir mais solidário.

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