"A criatividade nunca é apenas uma questão individual, mas não deixa de ser questão do indivíduo (..) Não se pode perder de vista que cada pessoa constitui um ser individual, ser in-divísivel em sua personalidade e na combinação única de suas potencialidades. Pensar na maioria dos homens somente como 'massa' (palavra derivada do grego máza, amassar pão), como algo desprovido de espinha dorsal, algo passivo a ser moldado por pressões e condicionamentos 'massificantes', não condiz com o ideal humanista, de respeito por potencialidades especificamente humanas." (pg. 147)
"Ser espontâneo nada tem a ver com ser independente de influências. Isso em si é impossível ao ser humano. Ser espontâneo apenas significa ser coerente consigo mesmo. Este é o problema. Não será impossível, mas fácil também não será. Porque, para ser espontâneo, para viver de modo autêntico e interiormente coerente, o indivíduo teria que ter podido integrar-se em sua personalidade, teria que ter alcançado alguma medida de realização de suas possibilidades específicas, uma medida de conscientização. Nessa medida ele será espontâneo diante das influências." (pg. 147)
"Frente à realidade concreta e em qualquer situação de vida, o indivíduo é delimitado por uma série de fatores (de ordem material, ambiental, social, cultural, e de ordem interna vivencial, afetiva) que se combinam em múltiplos níveis intelectuais e emocionais, em parte tornando-se conhecidos, conscientes e em parte permanecendo desconhecidos, inconscientes. Face à complexidade dos níveis e das qualificações mútuas, o equilíbrio interior é uma verdadeira conquista para o indivíduo, já porque a multitude de limites em tempos e espaços vários, ele a vive. E, no viver, ele próprio se transforma e altera os componentes de seu equilíbrio interior. Mas seja como for, são essas delimitações internas, relacionadas entre si e ordenadas em termos qualificadores, que nos fornecem uma medida de referência para avaliar a realização de nossas potencialidades. são elas que permitem nossa orientação seletiva. Dá-se um processo dialético: somos capazes de ampliar-nos coerentemente porque nos delimitamos coerentemente. Podemos responder à vida espontaneamente e em aberto porque a partir de nossa seletividade estruturamos a abertura à vida. Podemos estabelecer ordenações novas, dar forma aos fenômenos, dar significados, pois ao criar sempre delimitamos." (pg. 149)
"Como é entendida hoje, a liberdade de criação se confunde com a liberdade de expressão pessoal, uma vez que a criação é identificada unicamente com a auto-expressão. Nesse enfoque a liberdade de criar é caracterizada pela opção descompromissada e individual de como criar e o que criar. O ato criador é visto apenas em suas qualificações subjetivas; apenas, também, como ato expressivo, pois os aspectos expressivos predominam sobre os aspectos comunicativos. A obra criada é vista como uma mensagem de vivências pessoais." (pg. 150)
"Em outras palavras, no caso de Akhen-Aton a mudança de culto implicou mais do que apenas uma troca de divindade. Correspondeu a uma nova concepção de vida, a aspirações reformuladas em seu conteúdo espiritual, a um novo conteúdo existencial. É verdade que deparamos com uma constelação de circunstâncias históricas sui generis, onde um único indivíduo formula essa visão de vida e o mesmo indivíduo exerce tamanho poder sobre o contexto social a ponto de impregnar todo o fazer cultural da época. Mas somente por tratar-se de um processo de conscientização e de uma mentalidade nova é que pôde surgir um novo estilo." (pg. 154)
"Desde o século passado, a criação também subentende a expressão pessoal. Nesse sentido mais individualista, ela faz parte dos significados do nosso contexto cultural. Assim, ainda que as condições objetivas variem bastante, pode-se dizer que de um modo geral a liberdade criativa, isto é, a liberdade de expressão individual é compreendida pela sociedade moderna dentro da ação individual. A sociedade implicitamente propõe a liberdade junto com a ação. Contudo, o problema é mais complexo. Inegavelmente existe hoje uma liberdade, de ação e expressão, maior do que em épocas passadas, com opções pessoais. Essa liberdade deve ser considerada uma aquisição importante da cultura humana ao longo de seu curso histórico. Mas, parar aqui, seria ver uma parte apenas do problema de criação. Se, em termos individuais, se adquiriu uma liberdade diferente da que existia na Idade Média ou mesmo na Grécia, porque também se adquiriu o direito de se pensar na liberdade de expressão como uma questão a ser pensada, é bastante duvidoso se por isso seríamos mais criativos hoje do que o homem medieval ou grego. Em cada contexto cultural ocorre outro tipo de envolvimento. É o envolvimento por valores espirituais que podem permitir ou não a integração da individualidade e , com isso, permitem ou não a realização das potencialidades criativas. O que se questiona aqui é precisamente o conteúdo da liberdade de expressão. Com os envolvimentos de uma sociedade de consumo em que vivemos, onde unicamente nos cabe a função de consumidores - do nascer ao morrer, consumidores - e cujas metas nos chegam como influências corrosivas, pressões, imposições diante das quais é difícil se estruturar e não se perder em superficialidades ou incoerências, com tudo isso coloca-se a liberdade existente como 'a' liberdade. Mas, no que não se permite uma visão crítica das premissas desses envolvimentos, será uma liberdade aparente. Ao mesmo tempo, formula-se para a criação, em termos teóricos, o ideal de uma liberdade absoluta, sem limites. É outra falsificação. Esse tipo de liberdade está fora das possibilidades humanas e, portanto, não tem significado." (pg. 159, 160)
"Por mera habilidade poder-se-ia fazer muita coisa. Resta saber, porém, se esse 'muita coisa' é apenas um fazer por fazer ou se encerra um compromisso interior com aquilo que se está fazendo." (pg. 161)
"Criar é poder relacionar com precisão. Ou melhor ainda, criar é relacionar com adequação. O referencial dos limites permite que nos relacionamentos se use o senso de proporção, se avalie a justeza no que se faça. Se por algum motivo tivéssemos que estabelecer uma única qualificação condicional para o que é criativo, essa qualificação seria a da adequação, não seria a inovação nem a originalidade. seria a maneira justa e apropriada por que se corresponderiam as delimitações de um conteúdo expressivo e as delimitações de uma materialidade (os meios usados para se configurar). Não teríamos menos do que no caso fosse necessário, pois o resultado seria pobre, insuficiente e não-criativo, mas também não teríamos mais do que o necessário, cujo resultado por sua vez seria não-criativo no sentido de não-verdadeiro, irreal, excessivo, talvez até bombástico e vazio (consequentemente, a originalidade em si não é critério de criação)." (pg. 163)
"Frente à realidade concreta e em qualquer situação de vida, o indivíduo é delimitado por uma série de fatores (de ordem material, ambiental, social, cultural, e de ordem interna vivencial, afetiva) que se combinam em múltiplos níveis intelectuais e emocionais, em parte tornando-se conhecidos, conscientes e em parte permanecendo desconhecidos, inconscientes. Face à complexidade dos níveis e das qualificações mútuas, o equilíbrio interior é uma verdadeira conquista para o indivíduo, já porque a multitude de limites em tempos e espaços vários, ele a vive. E, no viver, ele próprio se transforma e altera os componentes de seu equilíbrio interior. Mas seja como for, são essas delimitações internas, relacionadas entre si e ordenadas em termos qualificadores, que nos fornecem uma medida de referência para avaliar a realização de nossas potencialidades. são elas que permitem nossa orientação seletiva. Dá-se um processo dialético: somos capazes de ampliar-nos coerentemente porque nos delimitamos coerentemente. Podemos responder à vida espontaneamente e em aberto porque a partir de nossa seletividade estruturamos a abertura à vida. Podemos estabelecer ordenações novas, dar forma aos fenômenos, dar significados, pois ao criar sempre delimitamos." (pg. 149)
"Como é entendida hoje, a liberdade de criação se confunde com a liberdade de expressão pessoal, uma vez que a criação é identificada unicamente com a auto-expressão. Nesse enfoque a liberdade de criar é caracterizada pela opção descompromissada e individual de como criar e o que criar. O ato criador é visto apenas em suas qualificações subjetivas; apenas, também, como ato expressivo, pois os aspectos expressivos predominam sobre os aspectos comunicativos. A obra criada é vista como uma mensagem de vivências pessoais." (pg. 150)
"Em outras palavras, no caso de Akhen-Aton a mudança de culto implicou mais do que apenas uma troca de divindade. Correspondeu a uma nova concepção de vida, a aspirações reformuladas em seu conteúdo espiritual, a um novo conteúdo existencial. É verdade que deparamos com uma constelação de circunstâncias históricas sui generis, onde um único indivíduo formula essa visão de vida e o mesmo indivíduo exerce tamanho poder sobre o contexto social a ponto de impregnar todo o fazer cultural da época. Mas somente por tratar-se de um processo de conscientização e de uma mentalidade nova é que pôde surgir um novo estilo." (pg. 154)
"Desde o século passado, a criação também subentende a expressão pessoal. Nesse sentido mais individualista, ela faz parte dos significados do nosso contexto cultural. Assim, ainda que as condições objetivas variem bastante, pode-se dizer que de um modo geral a liberdade criativa, isto é, a liberdade de expressão individual é compreendida pela sociedade moderna dentro da ação individual. A sociedade implicitamente propõe a liberdade junto com a ação. Contudo, o problema é mais complexo. Inegavelmente existe hoje uma liberdade, de ação e expressão, maior do que em épocas passadas, com opções pessoais. Essa liberdade deve ser considerada uma aquisição importante da cultura humana ao longo de seu curso histórico. Mas, parar aqui, seria ver uma parte apenas do problema de criação. Se, em termos individuais, se adquiriu uma liberdade diferente da que existia na Idade Média ou mesmo na Grécia, porque também se adquiriu o direito de se pensar na liberdade de expressão como uma questão a ser pensada, é bastante duvidoso se por isso seríamos mais criativos hoje do que o homem medieval ou grego. Em cada contexto cultural ocorre outro tipo de envolvimento. É o envolvimento por valores espirituais que podem permitir ou não a integração da individualidade e , com isso, permitem ou não a realização das potencialidades criativas. O que se questiona aqui é precisamente o conteúdo da liberdade de expressão. Com os envolvimentos de uma sociedade de consumo em que vivemos, onde unicamente nos cabe a função de consumidores - do nascer ao morrer, consumidores - e cujas metas nos chegam como influências corrosivas, pressões, imposições diante das quais é difícil se estruturar e não se perder em superficialidades ou incoerências, com tudo isso coloca-se a liberdade existente como 'a' liberdade. Mas, no que não se permite uma visão crítica das premissas desses envolvimentos, será uma liberdade aparente. Ao mesmo tempo, formula-se para a criação, em termos teóricos, o ideal de uma liberdade absoluta, sem limites. É outra falsificação. Esse tipo de liberdade está fora das possibilidades humanas e, portanto, não tem significado." (pg. 159, 160)
"Por mera habilidade poder-se-ia fazer muita coisa. Resta saber, porém, se esse 'muita coisa' é apenas um fazer por fazer ou se encerra um compromisso interior com aquilo que se está fazendo." (pg. 161)
"Criar é poder relacionar com precisão. Ou melhor ainda, criar é relacionar com adequação. O referencial dos limites permite que nos relacionamentos se use o senso de proporção, se avalie a justeza no que se faça. Se por algum motivo tivéssemos que estabelecer uma única qualificação condicional para o que é criativo, essa qualificação seria a da adequação, não seria a inovação nem a originalidade. seria a maneira justa e apropriada por que se corresponderiam as delimitações de um conteúdo expressivo e as delimitações de uma materialidade (os meios usados para se configurar). Não teríamos menos do que no caso fosse necessário, pois o resultado seria pobre, insuficiente e não-criativo, mas também não teríamos mais do que o necessário, cujo resultado por sua vez seria não-criativo no sentido de não-verdadeiro, irreal, excessivo, talvez até bombástico e vazio (consequentemente, a originalidade em si não é critério de criação)." (pg. 163)
Existe uma ordenação interior e individual que precede à cultura, por exemplo. De uma certa forma, somos influenciados por aquilo que nós temos uma afinidade, a nível de ser criativo espontâneo. É essa ordem que seletivamente nos relaciona afetivamente com as influências. A todo tempo, somos colocados em frente a fenômenos novos - pois que as formas, configurações não se repetem - e a partir de nossa seletividade interior, escolhemos nos relacionar com alguns e não com outros. A liberdade de expressão encontra-se na liberdade de criação mas o contrário nem sempre existe, pois a segunda está aliada ao crescimento e à conscientização enquanto que a primeira pode estar somente aliada à uma expressão consumista, alienada. De qualquer forma a liberdade não é nem absoluta nem imposta. A liberdade é um envolvimento espiritual e de respeito consigo e com o próximo. A delimitação ou limitação não é proibitiva, é ela que possibilita configurar os fenômenos e perceber.
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