domingo, 16 de fevereiro de 2014

Capítulo 2 / MATERIALIDADE E IMAGINAÇÃO CRIATIVA. "Criatividade e processos de criação", de Fayga Ostrower.

"O homem elabora seu potencial criador através do trabalho. É uma experiência vital. Nela o homem encontra sua humanidade ao realizar tarefas essenciais à vida humana e essencialmente humanas. A criação se desdobra no trabalho porquanto este traz em si a necessidade que gera as possíveis soluções criativas. Nem na arte existiria criatividade se não pudéssemos encarar o fazer artístico como trabalho, como um fazer intencional produtivo e necessário que amplia em nós a capacidade de viver." (pg. 31)

imaginação específica.

"(...) São análogos os princípios ordenadores que regem o fazer e o pensar; na avaliação de resultados (em qualquer área) partimos de noções similares de desenvolvimento e de equilíbrio." (pg. 31)

"Embora os conceitos dinâmicos possam ser análogos, o fazer concreto apresenta particularidades distintas. Diferencia-se pelas propostas materiais a serem elaboradas em cada campo de trabalho, de acordo com o caráter da matéria. diferencia-se, pois, segundo a materialidade em questão." (pg. 31)

"Usamos o termo  MATERIALIDADE, em vez de matéria, para abranger não somente alguma substância, e sim tudo o que está sendo formado e transformado pelo homem. Se o pedreiro trabalha com pedras, o filósofo lida com pensamentos (...)" (pgs. 31/32)

"Cada materialidade abrange, de início, certas possibilidades de ação e outras tantas impossibilidades. Se as vemos como limitadoras para o curso criador, devem ser reconhecidas também como orientadoras, pois dentro das delimitações, através delas, é que surgem sugestões para se prosseguir um trabalho e mesmo para se ampliá-lo em direções novas." (pg. 32)

"Formulamos aqui a ideia de a imaginação criativa vincular-se à especificidade de uma matéria, de ser 'imaginação específica' em cada campo de trabalho." (pg. 32)

"A imaginação criativa levantaria hipóteses sobre certas configurações viáveis a determinada materialidade. assim, o imaginar seria um pensar específico sobre um fazer concreto." (pg. 32)

"(...) Pelo contrário, o pensar só poderia tornar-se imaginativo através da concretização de uma matéria, sem o que não passaria de um divagar descompromissado, sem rumo e sem finalidade. Nunca chegaria a ser um imaginar criativo. Desvinculado de alguma matéria a ser transformada, a única referência do imaginar se centraria no próprio indivíduo, ou seja, em certos estados subjetivos desse indivíduo cujos conteúdos pessoais não são suscetíveis de participação por outras pessoas. Seria um pensar voltado unicamente para si, suposições alienadas da realidade externa, não contendo propostas de transformação interior, da experiência, nem mesmo para o indivíduo em questão." (pg. 32/33)

materialidade, linguagem.

"(...) Trata-se de formas significativas em vários planos, tanto ao evidenciarem viabilidades novas da matéria em questão, quanto pelo que as viabilidades contêm de expressivo, e, ainda, porque através da matéria assim configurada o conteúdo expressivo se torna possível de comunicação." (pg. 33)

"A materialidade não é, portanto, um fato meramente físico mesmo quando sua matéria o é. Permanecendo o modo de ser essencial de um fenômeno e, consequentemente, com isso delineando o campo de ação humana, para o homem as materialidades se colocam num plano simbólico visto que nas ordenações possíveis se inserem modos de comunicação. Por meio dessas ordenações o homem se comunica com os outros." (pg. 33)

"Assim, através das formas próprias de uma matéria, de ordenações específicas a ela, estamos nos movendo no contexto de uma linguagem. Nessas ordenações a existência da matéria é percebida num sentido novo, como realização de potencialidades latentes. Trata-se de potencialidades da matéria bem como potencialidades nossas, pois na forma a ser dada configura-se todo um relacionamento nosso com os meios e conosco mesmo. Por tudo isso, o imaginar - esse experimentar imaginativamente com formas e meios - corresponde a um traduzir na mente certas disposições que estabeleçam uma ordem maior, da matéria, e ordem interior nossa." (pg. 33/34)

elaboração.

"(...) Quando desconhecemos a materialidade da música, e sobretudo não a vivenciamos enquanto materialidade, torna-se impossível ter noção do processo de criação musical porque ele é um problema de linguagem musical. Não sabemos o que em realidade significa 'imaginar musicalmente'" (pg. 35)

"O único caminho aberto para nós, seria conhecer bem uma dada materialidade no próprio fazer. Com este conhecimento e com a nossa sensibilidade tentaríamos acompanhar analogicamente o fazer de outros; sempre, é claro, por analogias de estrutura, e não de operações mecânicas." (pg. 35)

"(...) Como personalidade, cada um de nós individualiza a criatividade e exerce-a em termos individuais (...) Era considerado importante poder seguir bem os preceitos já estabelecidos. Entretanto, mesmo nessa obra mais impessoal é possível reconhecer uma sensibilidade diferente em cada pintor, uma atitude seletiva diante das propostas do contexto cultural, não tanto na temática da pintura ou na interpretação iconográfica, quanto na maneira de pintar, nas ordenações, nas harmonias colorísticas, nas ênfases, ou seja, no enfoque manifesto na própria linguagem." (pgs. 36/37)

"Daí não se conclui que a linguagem em si seja subjetiva. Ela é objetivada como ordenação essencial de uma materialidade. essa objetivação da linguagem pela matéria constitui um referencial básico para a comunicação." (pg. 37)

"A matéria objetivando a linguagem, é uma condição indispensável para podermos avaliar as ordenações e compreender o seu sentido (...) Perdendo a cor na matéria pictórica, perdemos a visão da experiência criativa de Van Gogh, de sua intensidade emocional e também de sua lucidez (...) sem ter a matéria presente, isto é, sem condições de objetivar a linguagem, as eventuais contribuições subjetivas se desvalorizam, ou seja, não chegam a se concretizar." (pg. 37)

ampliação do imaginar.

"(...) Nesse processo, a especificidade se confunde com a ampliação de possibilidades. Acrescentamos aqui que isso jamais significa que à especificidade de propostas de pesquisa devam ou possam corresponder especializações em nosso vivenciar, compartimentos estanques na experiência da vida." (pg. 38)

"O contexto essencial, que não deve ser esquecido ou relegado, é o do homem. Todos os acontecimentos, tudo o que nos possa afetar e o que possamos querer saber, têm em comum o homem e a cultura humana." (pg. 38)

"A elaboração de possibilidades específicas da matéria permite que se alcancem maiores conhecimentos e um aprofundamento de trabalho." (pg. 38)

"É bem verdade que, no nível da tecnologia moderna e das complexidades de nossa sociedade, exige-se dos indivíduos uma especialização extraordinária. Esta, todavia, pouco tem de imaginativo. De um modo geral restringe-se, praticamente em todos os setores de trabalho, a processos de adestramento técnico, ignorando no indivíduo a sensibilidade e a inteligência espontânea do seu fazer. Isso, absolutamente, não corresponde ao ser criativo." (pg. 38)

"(...) Pois, antes de mais nada, as indagações constituem formas de relacionamento afetivo, formas de respeito pela essencialidade de um fenômeno (...) Ao mesmo tempo que se aprofunda na razão de ser um fenômeno, essa afetividade implica uma amplitude de visão que permite muitas coisas se elaborarem e se interligarem, implica uma visão globalizante dos processos de vida. A visão global dependerá da sensibilidade de uma pessoa; mas, reciprocamente, para se transformar em capacidade criativa real, a sensibilidade sempre dependerá dessa visão global." (pg. 39)

"O vício de considerar que a criatividade só existe nas artes, deforma toda a realidade humana (...) Nessas circunstâncias, como poderia o trabalho ser criativo? Pois não só se exclui do fazer o sensível, a participação interior, a possibilidade de escolha, de crescimento e de transformação, como também se exclui a conscientização espiritual que se dá no trabalho através da atuação significativa, e sobretudo significativa para si em termos humanos." (pg. 39)

"Enquanto o fazer humano é reduzido ao nível de atividades não-criativas, joga-se para as artes uma imaginária supercriatividade, deformante também, em que já não existem delimitações, confins de materialidade. Há um não-comprometimento até com as matérias a serem transformadas pelo artista." (pg. 39)

"O que, portanto, se coloca aqui é que, para poder ser criativa, a imaginação necessita identificar-se com uma materialidade (...) Mas sempre conta a visão global de um indivíduo, a perspectiva que ele tenha do amplo fenômeno que é o humano, o seu humanismo. São seus valores de vida que dão a medida para seu pensar e fazer." (pg. 40)

propostas culturais.

"(...) Não só a ação do indivíduo é condicionada pelo meio social, como também as possíveis formas a serem criadas têm que vir ao encontro de conhecimentos existentes, de possíveis técnicas ou tecnologias, respondendo a necessidades sociais e a aspirações culturais." (pg. 40)

"A matéria vem interligar-se, de partida, com um contexto histórico que a caracteriza quanto a finalidades e formas. A simples existência de uma matéria usada pelo homem diz respeito a todo um conjunto de fatores sociais." (pg. 40)

"Toda atividade humana está inserida em uma realidade social, cujas carências e cujos recursos materiais e espirituais constituem o contexto de vida para o indivíduo (...) Assim, o conceito de materialidade não indica apenas um determinado campo de ação humana. Indica também certas possibilidades do contexto cultural, a partir de normas e meios disponíveis." (pg. 43)

confins do possível.

"A materialidade seria, portanto, a matéria com suas qualificações e seus compromissos culturais. É ela, matéria cultural, que propões os confins do possível para cada indivíduo." (pg. 43)

"Esses confins são relativos em si. Referem-se a matérias e a culturas que podem ser transformadas. Não são confins fixos nem permanentes. Contudo, constituem a cada momento o ponto de referência para a criação, posto que só em relação aos confins existentes seria possível avaliar a extensão do criativo na obra realizada." (pg. 44)

"É claro que o contexto cultural em si não geraria a personalidade de Leonardo da Vinci. Pensar assim, seria formar um juízo demasiadamente determinista do desenvolvimento humano. Todavia, o contexto cultural, como substrato do ser individual do homem, fornece determinadas condições que permitem a manifestação e talvez até a realização de certas propostas que em outras épocas seriam inconcebíveis." (pg. 46)

"Um ponto ao qual queremos dar destaque é a personalidade criativa como manifestação da pessoa íntima de Leonardo da Vinci (...) O pesquisador procura desvendar os mistérios da natureza e compreender o significado de formas em que se externam as leis universais, e o artista vivencia as conclusões intelectuais, comove-se com a beleza dos significados percebidos." (pg. 47)

formar e transformar.

"Formar importa em transformar. Todo processo de elaboração e desenvolvimento abrange um processo dinâmico de transformação, em que a matéria, que orienta a ação criativa, é transformada pela mesma ação." (pg. 51)

"Transformando-se, a matéria não é destituída de seu caráter. Pelo contrário, ela é mais diferenciada e, ao mesmo tempo, é definida como um modo de ser. Transformando-se e adquirindo forma nova, a matéria adquire unicidade e é reafirmada em sua essência. Ela se torna matéria configurada, matéria/e/forma, (...)" (pg. 51)

"Daí se nos apresenta outro aspecto que tanto nos fascina no mistério da criação: ao fazer, isto é, ao seguir certos rumos a fim de configurar uma matéria, o próprio homem com isso se configura (...) Seguindo a matéria e sondando-a quanto à 'essência de ser', o homem impregnou-a com a presença de sua vida, com a carga de suas emoções e de seus conhecimentos. Dando forma à argila, ele deu forma à fluidez fugidia de seu próprio existir, captou-o e configurou-o. Estruturando a matéria, também dentro de si ele se estruturou. Criando, ele se recriou." (pg. 51)

"Em todas as matérias com que o homem lida se fará sentir sua ação simbólica. Em todas as linguagens, ao articular uma matéria, o homem deixa a sua marca, simboliza e indaga, movido por sua pergunta ulterior, que é pelo sentido de viver. Rearticulada, a matéria retorna ao homem. Na forma configurada, cada pergunta encerra uma resposta." (pg. 51/53)

"Raras vezes, é verdade, temos condições de decifrar a resposta em sua original extensão. Seja porque desconhecemos as codificações da matéria, seja porque, ao longo dos milênios e fora da realidade social em que foram formuladas as respostas, perdeu-se para a nossa vivência a multiplicidade de áreas associativas. Seja também porque, ao recriar as formas em nossa percepção, nós as modificamos, subjetivamente, com nosso enfoque vivencial, projetando nossas experiências e nossos valores para épocas e mentalidades bem diferentes das nossas. Entretanto, com todas as distorções inevitáveis, ainda nos resta um núcleo, áreas centrais de significado onde, na matéria formada, se vislumbra a figura de um homem que responde - ele fala sobre si, sobre sua vida, sobre seus valores de viver." (pg. 53)


RESUMO

A criatividade não está somente relacionada as artes e isso gera um desentendimento nada saudável. Muitos pensadores excluem a arte do trabalho, considerando este último como um fazer tecnicista e de produção em massa, excluso do pensar e sentir. Trabalhar é produzir, é agir impulsionado pela vida, para a vida e criativamente. A linguagem que construo seja no teatro, na dança, como na engenharia, tem princípios similares, análogos. Os processos criativos podem se dar em diferentes linguagens, em diferentes áreas de atuação e nascem globalmente da relação do indivíduo com sua cultura. Ao invés de mobilizarmos mais processos criativos, adestramo-nos, uns aos outros. O filósofo cria. O padeiro cria. O professor cria. O artista cria. O desempregado cria. Criar está relacionado a vida, ao indivíduo e a sociedade. É importante que haja uma ordenação interior a fim de que a subjetividade seja objetivada no intuito de concretizar, de comunicar. O criar tem a ver com essa comunicabilidade entre os indivíduos, os seres vivos, - levando-se em consideração que os animais 'irracionais' também criam porém, num outro nível de sensibilidade - esse é o seu caráter, pois sem o diálogo, o imaginar passa a ser uma alienação de si mesmo. Por mais que sejamos indivíduos e tenhamos mil pensamentos a cerca do que seja a solidão - por exemplo -, é nos relacionando que encontramos a vida. Por isso o respeito é tão importante. Vários universos distintos em universos maiores, a sociedade. É preciso que haja troca. A materialidade envolve um relacionamento afetivo entre o indivíduo e a matéria, assim como, depende de valores, contextos culturais/históricos e limitações tecnológicas para dar forma, concretizar a criação. Ao criar, ao dar forma, o indivíduo estará expressando esses valores culturais de sua época e sociedade. Por mais que o contexto cultural da época vivida nos leve - seja por meio de repressão - a uma forma padrão de criar, criaremos cada qual do seu jeito por mai sútil que seja. É a digital. A individualidade é característica inerente ao processo criativo. É aqui, durante o ato de criação que matéria e criador também se transformam. Ambos fazem parte da criação. À medida que modifico a matéria, sou modificado. É preciso perceber a matéria. Qual o seu tipo ? Quais as suas limitações ? As especificidades. As particularidades. A materialidade aqui não necessariamente precisa ser algo concreto. Pode ser um pensamento, no caso da filosofia. A matéria em si traz particularidades que delimitam o processo criativo, impulsionando o indivíduo a um imaginar específico a fim de detalhar melhor, dar forma, conteúdo. A especialização em demasia não é o que se procura. É preciso pensar no todo também. Essa especificidade amplia as possibilidades de criação e não reduz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário