"Não é no, no entanto, à questão da unicidade da experiência que aqui nos voltamos nem à da motivação pessoal. Queremos considerar o fato de que, por sensível que seja o indivíduo, inteligente, com pleno acesso às informações possíveis em um dado momento, com grande poder de imaginação e com igual poder de articulação na linguagem por ele escolhida - existem aspectos valorativos que estão fora de seu âmbito pessoal." (pg. 101)
"(...) Formando a base das instituições e das normas vigentes, constituem o corpo de ideias predominantes em uma dada sociedade. são as valorações da cultura em que vive o indivíduo, os chamados 'valores de uma época'". (pg. 101)
"O indivíduo talvez discorde de certas aspirações formuladas pelo contexto cultural; mesmo assim, é deste contexto que ele partirá para a crítica." (pg. 101)
"O homem desdobra o seu ser social em formas culturais. O estilo, por exemplo (...) O estilo é forma de cultura." (pg. 102)
"Os estilos correspondem a visões de vida. Nelas confluem os conhecimentos e as técnicas disponíveis a uma sociedade em um dado momento, os costumes, os ideais, as necessidades materiais e espirituais e certas possibilidades de satisfazê-las material e espiritualmente." (pg. 102)
"(...) Um exemplo, no caso, é o próprio potencial criador do homem. Sua indagação tem raízes históricas, surge no contexto do Renascimento, com o individualismo nascente visto como um valor, permitindo então a 'descoberta' das potencialidades individuais como uma fonte de riqueza e possível realização humana." (pg. 102)
"Quando mudam os estilos, indicam alterações nos esquemas de valores coletivos (...) Via de regra, o que em um dado contexto social tinha sido considerado fundamental, norma determinante nas instituições sociais e no convívio, em outro contexto seria relegado ao descrédito ou até seria rejeitado. Numa época posterior poderia ser redescoberto e retomado como aspiração ou reivindicação, e mais uma vez seria modificado (...) Por outro lado, também, os valores da Antiguidade, ressuscitados, surgem como valores inteiramente novos e originais, sustentando outras relações sociais e outras possibilidades de realização para o indivíduo." (pg. 102/103)
"(...) Cada homem é um indivíduo. Ao agir, inter-age com o mundo. Eventualmente ele agirá sobre o próprio contexto cultural. Por motivos talvez de ordem puramente pessoal e correspondentes a um potencial específico seu, podem desencadear-se no indivíduo respostas que, à medida em que aprofundam certos valores e certas possibilidades existentes no contexto em que vive, modificam essas possibilidades para rumos diferentes." (pg. 103)
"Para ilustrar o diálogo constante e dinâmico entre o contexto cultural/padrão de valores e a criatividade individual/valores individuais, escolhemos a problemática da perspectiva." (pg. 104)
"A perspectiva é um sistema de representação do espaço. Projetadas sobre uma superfície, as figuras de objetos ocupam, em planos superpostos, determinadas posições de proximidade e de distância. segundo o seu distanciamento, os objetos aparentam certas alterações de tamanho, de cor, de ângulo de luz e de orientação no espaço. Tanto os objetos como os espaços intermitentes são vistos afastarem-se progressivamente para o fundo, partindo de um plano frontal que corresponde à posição do espectador. Esse afastamento ocorre num movimento visual constante e graduado em contínuas diminuições, e dele resulta uma visão integrada da profundidade do espaço na forma de uma sequência única, unificada e causal. É a visão da perspectiva." (pg. 104)
"Ora, se olharmos para a arte medieval não encontraremos o sistema da perspectiva como configuração do espaço." (pg. 104)
"Não há por que atribuir a ausência do método perspectivo à ignorância ou falta de informação ou, mais absurdo ainda, à falta de habilidade." (pg. 104)
"Nada mais errôneo do que supor que, ao olhar para um campo, uma montanha, uma floresta, ou mesmo nos seus afazeres dentro de sua casa, o homem medieval não pudesse enxergar e ajuizar tudo isso, e dessa mesma maneira. 'Essa maneira' compreende os vários elementos componentes da perspectiva: as superposições no espaço, os recorsos, as diminuições gradativas de tamanho, o esfriamento de cores para tons de azul, as linhas horizontais que se tornam diagonais convergentes, e o ponto de fuga no horizonte. Não é preciso pôr em dúvida que o homem medieval tinha uma noção exata de distâncias e conhecia bem os efeitos ópticos de objetos que se afastavam em seu campo de visão. Distinguia os vários fatores que compõem a perspectiva e certamente os notava." (pg. 106)
"Mas, entre notar e relacionar há uma diferença fundamental." (pg. 106)
"Notavam-se, na Idade Média, os elementos componentes da perspectiva - isoladamente, enquanto aspectos observáveis. Nunca se chegou a selecioná-los. Ou a relacioná-los (...) todo relacionamento, quando configurado, constitui uma forma expressiva. Nesse sentido, como uma forma expressiva, a perspectiva era na época inaceitável, era incompatível com os valores medievais." (pg. 106)
"A forma da perspectiva contém em suas ordenações um significado que, como valor, se coloca fora da cosmovisão medieval. Implica não só uma materialização do espaço, mas sobretudo implica uma atitude racionalista ante a materialização. essa atitude de modo algum cabia nos valores vigentes. Não se coadunava à noção de primazia do espírito onde a matéria era considerada perecível e, principalmente, desprezível, e onde ao espiritual, exclusivamente, cabiam as qualificações positivas e válidas da vida." (pg. 106)
"Na afirmação da existência física material como algo positivo e digno, surge um novo valor. Posteriormente, ele se incorpora aos outros valores renascentistas. Mas cabe dar-lhe um destaque especial, pois a afirmação da matéria deve ser compreendida como anterior e imprescindível, como premissa para o sistema da perspectiva. Não é possível colocar em perspectiva algo que seja imaterial, que não tenha propriedades físicas." (pg. 110)
"Consequentemente, é em virtude da nova visão de mundo que admitia e, mais, aprovava a materialidade dos fenômenos, subvertendo os valores medievais, que se pôde elaborar a proposta da perspectiva." (pg. 110)
"A perspectiva é um sistema tão lógico nos relacionamentos entre a totalidade e suas partes, determina tão rigorosamente e define tão clara e plasticamente os objetos e os intervalos espaciais dentro da forma global de profundidade, que confere às imagens a ilusão do real (...) Embora se consolidasse inteiramente só no final do século XV, a perspectiva não preservou sua estrutura básica por muito tempo (...) os eixos centrais da estrutura espacial da imagem já se tinham deslocado para posições laterais, e com isso desviaram todas as correspondências visuais para a diagonalidade (...) No século XIX, começando com a arte romântica e culminando na arte impressionista, a própria estrutura de eixos e de pontos de fuga da perspectiva fora abolida. Mesmo assim subsiste, para a maioria das pessoas talvez, a ideia da perspectiva como aquisição final para a humanidade. Aquisição feita no Renascimento, mas válida para todas as épocas e em todas as circunstâncias, a perspectiva proporia os termos de uma 'configuração realista' do espaço. Representaria, portanto, a configuração da própria realidade" (pg. 112/116)
"Na arte moderna, não se encontra a perspectiva como configuração do espaço. Seria impossível atribuir esse fato a qualquer tipo de ignorância. A perspectiva é conhecida por nós. Ela está sendo ensinada nas escolas e é profissionalmente praticada; um arquiteto, um desenhista industrial, ao projetar uma mesa, lançara mão da perspectiva. Mas hoje a perspectiva representa apenas uma técnica de projeção, um método. Deixou de ser uma forma expressiva.." (pg 116)
"Vale repetir aqui que a perspectiva representa uma esquematização de dados. esquematização cultural, sem dúvida. Não se identifica com a percepção em si nem equivale a ela. Pelo que hoje se sabe, os processos naturais de ver e perceber não se configuram nos termos da perspectiva (como forma de relacionamento, bem entendido). A cada momento, nossos olhos abordam uma quantidade de campos ópticos (...) Estabelece-se uma visão multifocal em espaços e tempos variáveis. É uma visão por assim dizer "panorâmica". Ela é integrada por imagens focalizadas, imagens associadas e imagens da memória (...) No fundo, enxergamos mais do que acabamos percebendo, pois percebemos aquilo que, por uma razão ou outra e ainda de um modo determinado, recolhemos dentro do enxergar." (pg.117)
"No cubismo, na fase de pesquisa mais rigorosa, a chamada fase 'analítica', não obstante nos títulos figurativos os quadros se referirem a certos objetos, é a própria estrutura do espaço pictórico que fornece a temática das obras." (pg. 119/122)
"Na obra de Jackson Pollock, pintor americano da chamada 'arte informal' (action painting), as características de inquietação e de conflito são aprofundadas e acompanhadas ainda de uma maior desmaterialização (...) Não há nela qualquer referência nem a figuras humanas nem a objetos nem a paisagens." (pg. 122)
"Sua temática não é mais o espaço, e sim as emoções, o impacto de forças que agem sobre o homem, em termos de emoção: tensão, agitação, excitação, atomização. Como é formulada, representa uma visão nada reconfortante, quase sem esperanças. Nela, Pollock releva o drama do indivíduo na sociedade moderna, do ser humano que é atomizado e se desintegra em sua vida, diante de forças que os esmagam e o absorvem em ritmos incontroláveis." (pg. 122/125)
"Com esses exemplos, de arte cubista e de arte abstrata 'informal', procuramos mostrar que também numa época extremamente individualista como a nossa, em que na articulação da mensagem a expressão pessoal parece ter prioridade sobre o sentido de comunicação, os conteúdos significativos se reportam a projeções do nosso ser social. Na obra de arte, qualquer que seja o estilo e a época, transparece uma tomada de consciência ante a realidade vivida, ainda que o indivíduo formule sua experiência em termos subjetivos." (pg. 125)
"(...) Ao aprofundar certos conteúdos valorativos ou ao afirmar certas necessidades de vida que são negadas dentro do contexto cultural, as soluções criativas que o homem encontra, concretizam sempre uma extensão do real. Ainda que formulem caminhos utópicos, partem do real." (pg. 125)
Apesar de nos relacionarmos e ordenarmos, selecionando a partir de um referencial pessoal e individual, existem valores e contextos culturais que são de ordem coletiva e social. Mesmo que critiquemos uma cultura vigente, transformando-a em outras realidades, ainda assim partiremos desta cultura. Para falar sobre este diálogo, a autora parte da problemática da perspectiva. De como a perspectiva na Idade Média, Renascimento, não era possível de existir enquanto forma expressiva pois ela partia de uma racionalização da matéria no espaço e essa racionalização não era condizente com os valores culturais que cultuavam a espiritualidade em detrimento da matéria, naquela época. Mesmo assim, foi a partir de uma cultura negadora da matéria que se foi possível pensar a perspectiva e iniciar um processo de transformação daquela realidade que com o passar dos anos e mudanças para estilos como o cubismo e o barroco, teve a perspectiva inserida, aceita enquanto expressão artística, reinventada e até mesmo nos tempos modernos, esquecida.
"(...) Formando a base das instituições e das normas vigentes, constituem o corpo de ideias predominantes em uma dada sociedade. são as valorações da cultura em que vive o indivíduo, os chamados 'valores de uma época'". (pg. 101)
"O indivíduo talvez discorde de certas aspirações formuladas pelo contexto cultural; mesmo assim, é deste contexto que ele partirá para a crítica." (pg. 101)
"O homem desdobra o seu ser social em formas culturais. O estilo, por exemplo (...) O estilo é forma de cultura." (pg. 102)
"Os estilos correspondem a visões de vida. Nelas confluem os conhecimentos e as técnicas disponíveis a uma sociedade em um dado momento, os costumes, os ideais, as necessidades materiais e espirituais e certas possibilidades de satisfazê-las material e espiritualmente." (pg. 102)
"(...) Um exemplo, no caso, é o próprio potencial criador do homem. Sua indagação tem raízes históricas, surge no contexto do Renascimento, com o individualismo nascente visto como um valor, permitindo então a 'descoberta' das potencialidades individuais como uma fonte de riqueza e possível realização humana." (pg. 102)
"Quando mudam os estilos, indicam alterações nos esquemas de valores coletivos (...) Via de regra, o que em um dado contexto social tinha sido considerado fundamental, norma determinante nas instituições sociais e no convívio, em outro contexto seria relegado ao descrédito ou até seria rejeitado. Numa época posterior poderia ser redescoberto e retomado como aspiração ou reivindicação, e mais uma vez seria modificado (...) Por outro lado, também, os valores da Antiguidade, ressuscitados, surgem como valores inteiramente novos e originais, sustentando outras relações sociais e outras possibilidades de realização para o indivíduo." (pg. 102/103)
"(...) Cada homem é um indivíduo. Ao agir, inter-age com o mundo. Eventualmente ele agirá sobre o próprio contexto cultural. Por motivos talvez de ordem puramente pessoal e correspondentes a um potencial específico seu, podem desencadear-se no indivíduo respostas que, à medida em que aprofundam certos valores e certas possibilidades existentes no contexto em que vive, modificam essas possibilidades para rumos diferentes." (pg. 103)
"Para ilustrar o diálogo constante e dinâmico entre o contexto cultural/padrão de valores e a criatividade individual/valores individuais, escolhemos a problemática da perspectiva." (pg. 104)
"A perspectiva é um sistema de representação do espaço. Projetadas sobre uma superfície, as figuras de objetos ocupam, em planos superpostos, determinadas posições de proximidade e de distância. segundo o seu distanciamento, os objetos aparentam certas alterações de tamanho, de cor, de ângulo de luz e de orientação no espaço. Tanto os objetos como os espaços intermitentes são vistos afastarem-se progressivamente para o fundo, partindo de um plano frontal que corresponde à posição do espectador. Esse afastamento ocorre num movimento visual constante e graduado em contínuas diminuições, e dele resulta uma visão integrada da profundidade do espaço na forma de uma sequência única, unificada e causal. É a visão da perspectiva." (pg. 104)
"Ora, se olharmos para a arte medieval não encontraremos o sistema da perspectiva como configuração do espaço." (pg. 104)
"Não há por que atribuir a ausência do método perspectivo à ignorância ou falta de informação ou, mais absurdo ainda, à falta de habilidade." (pg. 104)
"Nada mais errôneo do que supor que, ao olhar para um campo, uma montanha, uma floresta, ou mesmo nos seus afazeres dentro de sua casa, o homem medieval não pudesse enxergar e ajuizar tudo isso, e dessa mesma maneira. 'Essa maneira' compreende os vários elementos componentes da perspectiva: as superposições no espaço, os recorsos, as diminuições gradativas de tamanho, o esfriamento de cores para tons de azul, as linhas horizontais que se tornam diagonais convergentes, e o ponto de fuga no horizonte. Não é preciso pôr em dúvida que o homem medieval tinha uma noção exata de distâncias e conhecia bem os efeitos ópticos de objetos que se afastavam em seu campo de visão. Distinguia os vários fatores que compõem a perspectiva e certamente os notava." (pg. 106)
"Mas, entre notar e relacionar há uma diferença fundamental." (pg. 106)
"Notavam-se, na Idade Média, os elementos componentes da perspectiva - isoladamente, enquanto aspectos observáveis. Nunca se chegou a selecioná-los. Ou a relacioná-los (...) todo relacionamento, quando configurado, constitui uma forma expressiva. Nesse sentido, como uma forma expressiva, a perspectiva era na época inaceitável, era incompatível com os valores medievais." (pg. 106)
"A forma da perspectiva contém em suas ordenações um significado que, como valor, se coloca fora da cosmovisão medieval. Implica não só uma materialização do espaço, mas sobretudo implica uma atitude racionalista ante a materialização. essa atitude de modo algum cabia nos valores vigentes. Não se coadunava à noção de primazia do espírito onde a matéria era considerada perecível e, principalmente, desprezível, e onde ao espiritual, exclusivamente, cabiam as qualificações positivas e válidas da vida." (pg. 106)
"Na afirmação da existência física material como algo positivo e digno, surge um novo valor. Posteriormente, ele se incorpora aos outros valores renascentistas. Mas cabe dar-lhe um destaque especial, pois a afirmação da matéria deve ser compreendida como anterior e imprescindível, como premissa para o sistema da perspectiva. Não é possível colocar em perspectiva algo que seja imaterial, que não tenha propriedades físicas." (pg. 110)
"Consequentemente, é em virtude da nova visão de mundo que admitia e, mais, aprovava a materialidade dos fenômenos, subvertendo os valores medievais, que se pôde elaborar a proposta da perspectiva." (pg. 110)
"A perspectiva é um sistema tão lógico nos relacionamentos entre a totalidade e suas partes, determina tão rigorosamente e define tão clara e plasticamente os objetos e os intervalos espaciais dentro da forma global de profundidade, que confere às imagens a ilusão do real (...) Embora se consolidasse inteiramente só no final do século XV, a perspectiva não preservou sua estrutura básica por muito tempo (...) os eixos centrais da estrutura espacial da imagem já se tinham deslocado para posições laterais, e com isso desviaram todas as correspondências visuais para a diagonalidade (...) No século XIX, começando com a arte romântica e culminando na arte impressionista, a própria estrutura de eixos e de pontos de fuga da perspectiva fora abolida. Mesmo assim subsiste, para a maioria das pessoas talvez, a ideia da perspectiva como aquisição final para a humanidade. Aquisição feita no Renascimento, mas válida para todas as épocas e em todas as circunstâncias, a perspectiva proporia os termos de uma 'configuração realista' do espaço. Representaria, portanto, a configuração da própria realidade" (pg. 112/116)
"Na arte moderna, não se encontra a perspectiva como configuração do espaço. Seria impossível atribuir esse fato a qualquer tipo de ignorância. A perspectiva é conhecida por nós. Ela está sendo ensinada nas escolas e é profissionalmente praticada; um arquiteto, um desenhista industrial, ao projetar uma mesa, lançara mão da perspectiva. Mas hoje a perspectiva representa apenas uma técnica de projeção, um método. Deixou de ser uma forma expressiva.." (pg 116)
"Vale repetir aqui que a perspectiva representa uma esquematização de dados. esquematização cultural, sem dúvida. Não se identifica com a percepção em si nem equivale a ela. Pelo que hoje se sabe, os processos naturais de ver e perceber não se configuram nos termos da perspectiva (como forma de relacionamento, bem entendido). A cada momento, nossos olhos abordam uma quantidade de campos ópticos (...) Estabelece-se uma visão multifocal em espaços e tempos variáveis. É uma visão por assim dizer "panorâmica". Ela é integrada por imagens focalizadas, imagens associadas e imagens da memória (...) No fundo, enxergamos mais do que acabamos percebendo, pois percebemos aquilo que, por uma razão ou outra e ainda de um modo determinado, recolhemos dentro do enxergar." (pg.117)
"No cubismo, na fase de pesquisa mais rigorosa, a chamada fase 'analítica', não obstante nos títulos figurativos os quadros se referirem a certos objetos, é a própria estrutura do espaço pictórico que fornece a temática das obras." (pg. 119/122)
"Na obra de Jackson Pollock, pintor americano da chamada 'arte informal' (action painting), as características de inquietação e de conflito são aprofundadas e acompanhadas ainda de uma maior desmaterialização (...) Não há nela qualquer referência nem a figuras humanas nem a objetos nem a paisagens." (pg. 122)
"Sua temática não é mais o espaço, e sim as emoções, o impacto de forças que agem sobre o homem, em termos de emoção: tensão, agitação, excitação, atomização. Como é formulada, representa uma visão nada reconfortante, quase sem esperanças. Nela, Pollock releva o drama do indivíduo na sociedade moderna, do ser humano que é atomizado e se desintegra em sua vida, diante de forças que os esmagam e o absorvem em ritmos incontroláveis." (pg. 122/125)
"Com esses exemplos, de arte cubista e de arte abstrata 'informal', procuramos mostrar que também numa época extremamente individualista como a nossa, em que na articulação da mensagem a expressão pessoal parece ter prioridade sobre o sentido de comunicação, os conteúdos significativos se reportam a projeções do nosso ser social. Na obra de arte, qualquer que seja o estilo e a época, transparece uma tomada de consciência ante a realidade vivida, ainda que o indivíduo formule sua experiência em termos subjetivos." (pg. 125)
"(...) Ao aprofundar certos conteúdos valorativos ou ao afirmar certas necessidades de vida que são negadas dentro do contexto cultural, as soluções criativas que o homem encontra, concretizam sempre uma extensão do real. Ainda que formulem caminhos utópicos, partem do real." (pg. 125)
RESUMO.
Apesar de nos relacionarmos e ordenarmos, selecionando a partir de um referencial pessoal e individual, existem valores e contextos culturais que são de ordem coletiva e social. Mesmo que critiquemos uma cultura vigente, transformando-a em outras realidades, ainda assim partiremos desta cultura. Para falar sobre este diálogo, a autora parte da problemática da perspectiva. De como a perspectiva na Idade Média, Renascimento, não era possível de existir enquanto forma expressiva pois ela partia de uma racionalização da matéria no espaço e essa racionalização não era condizente com os valores culturais que cultuavam a espiritualidade em detrimento da matéria, naquela época. Mesmo assim, foi a partir de uma cultura negadora da matéria que se foi possível pensar a perspectiva e iniciar um processo de transformação daquela realidade que com o passar dos anos e mudanças para estilos como o cubismo e o barroco, teve a perspectiva inserida, aceita enquanto expressão artística, reinventada e até mesmo nos tempos modernos, esquecida.
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