sexta-feira, 18 de abril de 2014

Capítulo 4 / RELACIONAMENTOS: FORMA E CONFIGURAÇÃO. "Criatividade e processos de criação.", de Fayga Ostrower.

"Nas primeiras semanas de vida, quando o bebê recém-nascido passa dormindo a maior parte dos dias e das noites, está desde então ordenando certas sensações, estruturando-as em experiências. Naquelas ordenações se fundamentarão outras." (pg. 77)

"O bebê não está consciente de si. Todavia, já nasceu com um potencial de consciência. Pode sua consciência estar se organizando e se complexificando gradualmente, mas, ao organizar-se, já funciona." (pg. 77)

"(...) Certas coisas serão condicionadas, o choro, o colo, a atenção da mãe. Percebendo que foi para o colo quando estava molhado e chorou, o bebê começa a sentir que, chorando, pode ir para o colo. Numa próxima vez talvez chore, não porque esteja molhado mas porque queira ir para o colo. Ele aprende que as coisas podem ser solicitadas pelo seu comportamento." (pg. 77)

"Em breve, certos cheiros ou sons ou movimentos serão suficientes para que o bebê os interprete como indicadores de determinada situação. Pela sequência ordenada em que surgem, adquirem significado. Indicam alterações no ambiente físico que por sua vez evocam alterações psíquicas. Relacionando e associando, desde cedo o bebê começa a lidar com significações. " (pg. 78)

"(...) À medida em que a presença passiva da criança se transforma progressivamente em presença ativa, os significados podem abranger também níveis do consciente." (pg. 78)

"(...) É um processo de memória e de conscientização." (pg. 78)

forma.

"A forma é algo em si delimitado - mas não no sentido de uma área demarcada por fronteiras (...) A forma é o modo por que se relacionam os fenômenos, é o modo como se configuram certas relações dentro de um contexto. Para dar um exemplo visual: ao se observar duas manchas vermelhas lado a lado, vê-se uma forma.  Ela abrange as manchas e os relacionamentos existentes entre as manchas. Portanto, a forma não seria uma mancha isolada, seria a mancha relacionada a alguma coisa. Se a mancha estiver sozinha no plano pictórico, estaria relacionada ao fundo branco (que é extensão, é superfície e é cor). Se a mancha vermelha for colocada ao lado de uma mancha verde, teremos outra forma (cujo significado afeta a mancha vermelha embora fisicamente não a altere), isto é, teremos um outro relacionamento com outros componentes, outro contexto. E se essas manchas, a vermelha e a verde, forem colocadas nas margens laterais de um plano, afastadas entre si por um intervalo espacial, configurarão outra forma ainda, pois veremos um novo tipo de relacionamento entre os componentes anteriores." (pg. 78/79)

modalidades de enfoque.

"Tudo se articula para nós a partir de relacionamentos configurados. Entretanto, já na maneira de se relacionar também existe um configurar. Diríamos que há em nós, em nível pré-consciente ou talvez até inconsciente, uma orientação prévia que funciona a um tempo como prisma seletivo e princípio ordenador. Partindo de necessidades internas, de motivações e intenções onde influem fatores culturais, não só a nossa atenção é solicitada de determinada maneira para determinados aspectos dos fenômenos, como também os aspectos ainda selecionados se interligam para nós de uma maneira determinada. Surgem ordenações em nossa percepção que revelam um enfoque seletivo existente nos próprios relacionamentos. São modalidades diferentes de relacionar." (pg. 79/80)

"Queremos distinguir aqui entre duas modalidades principais que denominaremos: ordenações de campo e ordenações de grupo." (pg. 80)

"(...) Deve ficar entendido, porém, que, se damos ênfase à distinção, nós o fazemos por uma questão de metodologia. Embora divergentes, os limites são bastante tênues e os processos configuradores são muitas vezes concomitantes a ponto de se sobreporem em nossa experiência." (pg. 80)

"Em ordenações de campo, o relacionamento de vários fatores ocorre através de ligações de proximidade e de interdependências locais. Enfocam-se os fatores em conjunto por acontecerem praticamente ao mesmo tempo e no mesmo lugar." (pg. 80)

*Em ordenações de grupo, os fatores se interligam à base de certas semelhanças. Esses fatores não precisam encontrar-se juntos ou contíguos; as ligações funcionam por meio de comparação através de intervalos espaciais e temporais. Os fatores são percebidos como componentes individuais, separáveis e abstraíveis, podendo existir independentes da situação em que são vistos." (pg. 80)

"Por exemplo, uma coisa é ver um pão na mesa quando se está com fome e se quer comer. Outra coisa é ver o mesmo pão na mesa e querer contá-lo, talvez porque se queira conferir a compra de meia dúzia de pães." (pg. 80)

"No primeiro caso, o pão faz parte de um contexto 'pão-prato-mesa-fome-agora.' (...) O caráter da relação é predominantemente sensorial-afetivo." (pg. 81)

"Quando a intenção é uma contagem, o relacionamento que se estabelecer e a configuração que daí resultar, não serão o mesmo relacionamento nem a mesma configuração (embora talvez incluam os mesmos objetos) da situação 'pão-fome'. Contar e, por conseguinte, comparar, envolve sempre um processo de abstração (...) A abstração é um fator preponderante em todas as operações intelectuais." (pg. 81)

"Nas ordenações de grupo se generaliza e se conceitua. Nas ordenações de campo se acentua a unicidade de um acontecimento (...) Os vários dados da situação são vistos interligarem-se, isolando o acontecimento e estabelecendo-o como fato concreto e único que ocorre em um momento também concreto e único. E talvez, em certas ocasiões, torna-se necessário ao homem poder antes de tudo isolar certos fenômenos e identificá-los enquanto presenças, porque nelas o homem capta a sua própria presença e se identifica perante si mesmo. Ele precisa dar um nome às coisas." (pg. 81/82)

"(...) Através do enfoque predominantemente sensorial que se dá em ordenações de campo, a percepção de si, das matérias e do próprio fazer, se articula sempre de um modo mais subjetivo e específico, e mais direto. Nas ordenações de grupo em que se compara e se generaliza, a percepção pode ser entendida como sendo mais objetivada (...) essas ordenações permitem ao homem enveredar, pensador e experimentador que é, pelos invisíveis e imprevisíveis caminhos da elaboração intelectual." (pg. 82)

"Ambas as modalidades, como vias de conhecimento, são influenciadas pela cultura dentro da qual o indivíduo se desenvolve e forma os seus valores. Interligando-se com o aculturamento há, porém, para todos os seres humanos e em todas as culturas, um processo de crescimento biológico no qual as ordenações de campo surgem como relacionamentos iniciais. Quando no começo deste capítulo falamos do bebê e descrevemos como se formam os relacionamentos, de fato já os exemplificamos com processos de percepção que se organizam a partir de ordenações de campo (...) Sem que necessariamente viesse a distinguir os componentes das situações ou a casualidade operante entre elas, é possível que o bebê sentisse o 'envolvente' como algo aconchegante, protetor, ou talvez, até, como sufocante." (pg. 83)

"(...) As coisas ainda não são separáveis, ou então separadamente pertencem a outras situações (...) Aos poucos, o bebê torna-se capaz de distinguir os componentes fora das situações conhecidas (...) Poderá generalizar e comparar. no início, isso não lhe era possível (...) Representa esse um novo nível de relacionamento para a criança, um nível que, embora intelectual, antes teria que ser emocionalmente estruturado dentro dela." (pg. 83)

"(...) De certo modo, a segunda etapa, a de ordenar por agrupamentos, estará vinculada ao desenvolvimento da primeira porque é essencial ao ser humano poder identificar algo antes de poder compará-lo. Assim, à luz da formação da personalidade, essa primeira etapa, envolvendo a capacidade de viver e identificar as coisas de modo sensorial e de se vincular a elas afetivamente, poderá dar melhores condições para desenvolver a segunda etapa, mais intelectual, de comparações e abstrações." (pg. 83)

"(...) Como possibilidades de compreensão que se complementam, ambas as vias de relacionamento são fundamentais, e poder lidar bem com ambas seria fundamental." (pg. 84)

"Sabemos que em outros contextos culturais, contextos sociais anteriores e mais primitivos, o homem se vinculava à vida através de um enfoque predominantemente sensual-afetivo (...) Relacionava sempre, imaginava, associava, concebia múltiplas ligações entre os fenômenos; não os conceituava, porém." (pg. 85)

"(...) No curso do desenvolvimento histórico, a abstração, a racionalização e a conceituação representam uma aquisição mais recente da humanidade (...) Foi, e poderia ser em grau sempre crescente, um processo de humanização. E não haveria por que renunciar a isso." (pg. 85)

"Sucede, porém, que a cultura em que vivemos vai ao outro extremo (...) Vêmo-lo a partir do aculturamento da criança, nos próprios brinquedos que lhe são oferecidos, seguindo-se um sistema de ensino que parece visar apenas a uma retenção mecânica de fórmulas e conceitos, ou métodos de instrução preparando os jovens para participarem de atividades produtivas sociais, cujo aprendizado permanece largamente teórico (mesmo nas áreas técnicas). Não existe quase nenhum contato com matérias, com processos de trabalho, com pessoas. O conhecimento reduziu-se a um saber, e o saber, a um teorizar." (pg. 86)

"O desdém pela experiência sensível do homem reflete o desinteresse pelo próprio ser humano, por sua afetividade e suas potencialidades criativas (...) Põe em evidência o clima alienante de nossa sociedade (...) Pois que, além de colocar O CONCEITO num pedestal - embora na realidade se reduza a capacidade humana de conceituar a um mero classificar e rotular, a uma atividade que raramente ultrapassa o nível de fórmulas para tão raramente identificar-se com qualquer tipo de compreensão - produz-se em todos os planos sociais, de convivência, de informação, de educação, do trabalho e mesmo no lazer, uma tamanha dessensibilização, que é verdadeiro milagre as pessoas sobreviverem com alguma medida de integridade e de individualização do seu ser." (pg. 87)

ordenações de campo.

"(...) Sobretudo tornam-se expressivas as relações ambientais abrangentes, isto é, percebemos que algo se encontra dentro ou fora de outra coisa, algo envolto por algo envolvente." (pg. 87)

"O abranger, aliás, configura o que chamamos de compreender (compreender, o termo verbal ilustra-o com uma imagem de espaço precisa belíssima). E nas abrangências, nesse dentro-fora simultâneo, também se baseia nossa noção de contextos-conteúdos." (pg. 88)

"Destacando-se momentaneamente em nossa atenção, o campo ambiental parece ressaltar do fluxo do ocorrer. Nosso interesse se dirige espontaneamente para a parte central do campo, onde procura focalizar certas diferenciações. Nesse ínterim, o espaço-tempo circundante passa a constituir uma espécie de fundo relativamente indiferenciado em nossa percepção e tende a recuar." (pg. 88)

"(...) A extensão e a configuração do campo em cada caso particular dependem de nossa atenção. Se nossa atenção for desviada para outro evento, o campo se desvanece, isto é, deixa de existir como relacionamento e como forma." (pg. 88)

"Nossa vigilância tem diversos níveis, variando de um estado de concentração focalizada a um estado de atenção subliminar. enquanto estivermos concentrados na forma de um determinado campo, permanecemos conscientes de áreas periféricas com uma atenção mais difusa. Qualquer alteração nessas áreas, sobretudo se for abrupta e envolva algum tipo de movimento, imediatamente atrai nosso interesse. Poderão assim as periferias tornar-se a nova situação, centro de nossas atenções." (pg. 88)

"Sempre extraímos um campo de outro campo, maior, menor, este de outro campo e, por sua vez, de um outro e de outro." (pg. 88)

"(...) É verdade que não podemos captar os dados isolados, individualmente, nem abstratamente os podemos conceber, nem concretamente os representar enquanto partes separáveis de uma totalidade dinâmica (...) Ainda assim resulta de sua presença conexa uma unidade diferenciada. Ela se distingue do meio ambiental como um todo, como algo que é em si determinado, pois há nesses dados indicações de aproximações e afastamentos que se acentuam para fornecer-nos os fulcros, as extensões e as cisões dos eventos." (pg. 89)

"(...) Na percepção de um campo, nosso modo de relacionar sempre procederá de grandeza maior para menor, para um estado específico focal." (pg. 89)

ordenações de grupo.

"É nisso, essencialmente, que diferem as ordenações de grupo: no modo de se fazerem as liagções. Agrupando através de comparações, relacionamos de grandeza menor para maior. Procuramos, e portanto encontramos, o genérico antes do específico." (pg. 89)

"Ao agrupar dados, físicos ou mentais, por qualquer tipo de analogia formal que possamos conceber, abstraímos nos fenômenos concretos aquelas irregularidades e os pequenos desvios que perfazem a unicidade de cada evento, em favor de uma base comum em que sejam comparáveis." (pg. 89)

"(...) Em complexidade e também em escala, a forma das ordenações de grupo pode ser mais ampla do que é possível na das ordenações de campo." (pg. 89)

(...) Nessa estátua (o tridente na mão direita perdeu-se), a ação ordenadora se estende tanto aos elementos esculpidos, aos volumes, espaços convexos, quanto aos intervalos espaciais, aos vazios, espaços côncavos. Poderíamos tentar visualizar os braços numa posição mais baixa, mais junto ao corpo. Não só se perderia a grande horizontal impulsionada pelo braço direito levemente elevado, traçando e dirigindo a amplidão do espaço. Numa alteração de intervalos (portanto, alteração na forma total) perdem-se as proporções da estátua e o maravilhoso balanço entre a energia dos braços estendidos e a vibração das pernas, apoiada uma no calcanhar e a outra na ponta dos dedos do pé. Perdendo as proporções, perde-se a tensão exata entre controle e relaxamento, perde-se a medida interior esse deus tão sublimemente, perdeu-se seu caráter heróico." (pg. 89)

"(...) Em todas as obras de arte, em qualquer das artes, o artista usará concomitantemente as ordenações de grupo e as de campo; em sua linguagem se complementarão ao mesmo tempo aspectos intelectuais e sensuais da experiência. Como ordenações de grupo, havemos de reconhecer um padrão coerente segundo o qual se determina a dinâmica da obre, nas proporções e no ritmo dos vários componentes (componentes e intervalos), ao passo que através de ordenações de campo se configura a especificidade material da obra em termos de sua existência concreta e única. Assim, pela linguagem, a obra de arte afirma em nós a dupla experiência: a do fenômeno do ser e a da ordem do ser." (pg. 90)

semelhanças, contrastes.

"Os componentes que entram numa ordenação de grupo, que são comparados entre si e ligados à base de sua semelhança, naturalmente não precisam ser iguais. Eles devem ser 'semelhantes'. A rigor, nem é possível especificar no que consistem as semelhanças. O critério é flexível e pragmático, de equivalência e afinidades, de intenções até, valendo o que na prática seria considerado parecido." (pg. 92)

"Quando não semelhantes, os componentes devem ser dessemelhantes, isto é, a diferenciação ainda deve permitir um denominador comum, à base do qual se estabeleça o relacionamento." (pg. 92)

"(..) Quando se segregam num contexto de semelhanças, os contrastes também serão atraídos. Apenas, a aproximação se dará de outra maneira. Será uma oposição em vez de fusão." (pg. 92)

"A noção da qual não se vai descuidar é que relacionar significa interligar. Assim, mesmo no 'ser diferente' de um contraste haverão de prevalecer os aspectos de ligação. Ao se segregarem os contrastes, eles de fato não se desligam; coexistem com as semelhanças e cada qual reforça reciprocamente o caráter do outro. O que muda é a função que os contrastes e as semelhanças desempenham na forma. E, de acordo com a função, muda o seu significado. Enquanto as semelhanças são percebidas como tantas repetições ou variações, ou passagens, os contrastes constituem tantas ênfases, oposições ou mesmo cortes. De modo geral, pode-se notar o seguinte aspecto expressivo: quando algum contraste,  menor, maior, se destaca e com isso se segrega dentro de uma forma, menos, mais, conforme for o caso, ao segregar cria um distanciamento. O distanciamento poderá ser de ordem física e psíquica; de ordem psíquica será sempre, já pelo fato de o contraste ter-se segregado antes de se aproximar. Em outras palavras, ao interligar-se ao grupo o contraste carrega uma tensão espacial maior do que as semelhanças, e tensões emocionais correspondentes." (pg. 92)

"(...) Consequentemente, quando as semelhanças predominam numa obra, encontramos conteúdos expressivos de caráter mais lírico, ou, então, numa escala física maior, configura-se um conteúdo épico. Quando  predominam os contrastes, articulam-se conteúdos mais dramáticos." (pg. 93)

totalidades, partes, níveis.

"A ideia de partes é válida para objetos, ou para configurações que sejam concebidas como estáveis num espaço-tempo, também concebido como relativamente estável. Em formas artísticas, as partes correspondem a divisões internas produzidas por contrastes. Subdividido em áreas subordinadas e dominantes, áreas de transição e áreas de clímax, o todo pode ser percebido como um conjunto composto e articulado em seu conteúdo expressivo - a função das partes sendo precisamente a de explicitar uma totalidade que contenha uma medida de desenvolvimento interior. Só assim a estrutura pode tornar-se forma simbólica e pode comunicar o conteúdo expressivo." (pg. 94)

"Quando, no entanto, passamos para o âmbito de configurações de ordem funcional, isto é, à base de relações e de inter-ações no tempo e espaço, encontramos níveis, em vez de partes ou subdivisões. São níveis de integração - como fases de um processo - anteriores talvez a outros níveis integrativos mais elevados, quantitativamente mais ricos e qualitativamente mais complexos. Qualquer processo de crescimento orgânico ou cultural, qualquer sequência que abrange desdobramentos, ou separações levando a novas separações ou a novos desdobramentos, o exemplificam." (pg. 94)

"Como momentos particularizados de um processo de transformação, as várias fases não se encaminham de um todo para suas partes ou, em sentido contrário, das partes para um todo. seguem, antes, de um nível integrativo para outro, de uma estruturação para outra, de uma configuração para outra configuração (...) Cabe considerar, ainda que, num processo, não só o desenvolvimento é um contínuo, como também é irreversível a modos anteriores, irreversível no tempo." (pg. 94)

"Se à luz dessas observações retomamos a noção da totalidade e suas partes, queremos por um lado mostrar o sentido relativo da noção e, por outro, aproximá-la da noção de contexto-conteúdo. Nenhuma forma é tão autônoma que constitua uma totalidade isolada. A obra de arte precisa de um espectador para se completar, e com cada espectador ela se completa de maneira diferente. Tampouco há, para nosso vivenciar, algum conteúdo sem contexto - e não há contexto tão fechado em si que não envolva contextos mais amplos." (pg. 95)

níveis integrativos, qualidades.

"Segundo os níveis de integração - e são incontáveis nas matérias e nos modos de ser - podemos constatar algo que é tão misterioso quanto a própria vida: a cada nível, de acordo com a crescente complexidade de organização nos inter-relacionamentos, surgem novas qualidades novas." (pg. 95)

"(...) São, de fato, qualidades originais, qualificações, propriedades novas. Podem até não corresponder às propriedades de um estado anterior, porquanto essas qualidades novas se originam exclusivamente nas condições estruturais da nova configuração." (pg. 95)

"A água resultou da transformação da matéria física por processos de interação molecular. Caberia considerar que as mesma substâncias originais, os dois gases, a partir de seus relacionamentos e de suas especificidades originais, ainda desempenhariam novas funções quando novamente integrados em outros níveis de estruturação. Teriam outra forma." (pg. 95)

"É verdade que, na percepção como em qualquer processo psíquico, essa dinâmica é muito menos tangível em termos concretos. Os limites das situações são menos definidos e as configurações se modificam continuamente. Parece haver um desenvolvimento sem referências fixas. Os próprios componentes individuais a serem integrados frequentemente só têm caráter relativo, só vem a existir, tanto os componentes quanto os níveis, a partir de interligações entre o nosso perceber e certos dados da realidade externa." (pg. 95/96)

"(..)Se, por exemplo, desenharmos um quadrado e, dentro dele, uma cruz, não seria mais possível conhecer esse quadrado sem a cruz. Se quisermos omitir a cruz, ainda que apenas para poder visualizá-lo assim em nossa imaginação, teríamos que desenhar um novo quadrado." (pg. 96)

"Por isso é impossível voltar atrás e decompor uma forma, desagregá-la ou dissolvê-la. Novamente, forma não se reporta só à arte. Todas as manifestações de nossa vida e todas as experiências são formas, fenômenos estruturados e apreendidos através de processos também estruturados. Impossível, então, deveras irrealizável, é desfazer um acontecimento, eximir-se dele ou supor que não existiu. Por acontecer, o fato configura algo e, ao configurar, modifica algo. Modifica certas realidades - em nós também. A única coisa possível é elaborarmos as formas a partir de sua existência, em busca de novas realidades. só podemos mesmo criar." (pg. 96/97)

ordenações.

"Por isso a proposição matemática 'a ordem dos fatores não altera o produto' nunca se aplica a configurações. Nas configurações, sempre a ordem há de alterar o produto, pois ela própria é o produto. pela ordenação dada, contexto e conteúdo passam a se interpenetrar e a corresponder-se. A título exemplificativo ordenamos as letras S-A-C-O. Alinhando essas letras de várias maneiras, obtém-se SACO ou ASCO ou OCAS ou SOCA ou CAOS, configurações entre si diferentes e com significados totalmente díspares." (pg. 97)

"Ao final do processo formativo, resulta uma imagem, uma configuração visual, cuja estrutura é inteiramente visível." (pg. 98)


equilíbrio.

"Para o ser humano, o equilíbrio interno não é um dado fixo. nem se trata de uma abstração ou da conceituação de um estado ideal. O equilíbrio é algo que a todo instante precisa ser reconquistado. trata-se de um processo vivido, um processo contínuo onde as coisas se propõem a partir de uma experiência e onde, ao se reorganizarem os termos da experiência, já se parte para uma outra experiência, mais ampla. No fluir da vida, nos sucessivos eventos externos e internos que nos mobilizam, cada momento de estabilidade é imediatamente questionado. Cada pensamento desequilibra algum estado anterior. Introduz um fato novo, acrescenta uma medida de movimento (...) Viver, para nós, torna-se um incessante ter-que-desequilibrar-se a fim de alcançar algum tipo de equilíbrio dentro de si." (pg. 99)

"Esses desequilíbrios em busca de equilíbrio são inevitáveis. são da essência do viver (...) Traduzem para nós a presença vária de forças desiguais e intercorrentes em nós, de princípios, talvez de oposição, originando ímpetos vitais que nos impulsionam a agir, a superar os obstáculos, a compreender e a criar." (pg. 99)

"Poder alcançar um estado de equilíbrio, sensibiliza-nos como uma verdadeira conquista. O equilíbrio não anula as forças diferentes. Para o homem, em qualquer situação de vida trata-se de conviver com essas forças, viver através delas e incorporá-las com vistas a uma maior diferenciação. Com isso o homem amplia a apreensão da realidade. Quando vemos uma forma expressiva, vemos em seu equilíbrio interior que as várias forças diferentes foram de algum modo reunidas e em algum ponto compensadas, adquirindo um novo sentido de unidade. Na forma expressiva, os elementos complexos da experiência humana não se descaracterizam, eles se esclarecem a um nível mais significativo." (pg 99)

RESUMO.

Os processos de criação, de percepção se dão através de relacionamentos. Esses são as formas a que a autora se refere neste livro. Formar é se relacionar com o ambiente, o contexto cultural e com outras pessoas. Como já fora dito anteriormente, é se relacionar afetivamente com a matéria. O exemplo do bebê em seus primeiros dias de vida, é fantástico e tocante no que se refere à experimentação, a identificação através da percepção de imagens referencias novas para ele. A ordenação com que se estrutura primeiramente o sensório a partir da experiência imediata para consequentemente racionalizar é o processo de criação da humanidade, ou humanização, que vem acontecendo desde os primórdios. Primeiro, experimentamos para depois refletirmos numa ordenação que a autora chama de ordenação de grupo. Pelo fato de já termos avançado séculos de racionalização, essa ordenação inicial a que a autora se refere como de campo, que se dá através do sensível, vem perdendo sua essência pelo acúmulo de valores impregnados de esteriótipos e rótulos. O indivíduo não mais experimenta, relacionando-se e a partir daí forma, configura. As formas já estão cristalizadas - percebemos também uma educação tecnicista e de adestramento desde a infância a fim de condicionar o futuro adulto a repetir ações - a ponto de comprometer a individualidade positiva, ou seja, somos uma sociedade com 'indivíduos' condicionados a pensarem de um único jeito, em um único caminho. É natural que pela diversidade cultural existente em nosso planeta, isso ainda não seja uma regra. O fato dessa diversidade ainda existir e pela aculturação, o indivíduo ainda pode experimentar, engatinhando como um bebê ao contato de uma nova cultura. As relações se dão em campo e/ou agrupamento, sendo que uma linha de segregação entre esses dois tipos é mais para definir, uma vez que ambas se misturam. As de campo, dar-se-iam mais na especificidade enquanto as de agrupamento, de maneira mais generalizada. Ao observarmos um fenômeno, teremos sempre em vista este fenômeno de maneira integral, totalitária. Por mais que recortemos ou em partes ou em níveis, o todo não pode ser esquecido. Estes mesmos fenômenos terão diversificadas e definitivas formas. A estruturação, ordenação, interligação e relacionamento entre os componentes gerarão formas sempre originais. Se pensarmos uma obra de arte, está terá formas diferentes para cada observador e até mesmo para um mesmo observador. Não porque mudou-se a forma anterior. A obra continua a mesma, mas porque talvez o observador não seja o mesmo, a cultura não seja a mesma e até mesmo quando esses últimos não são mais os mesmos, é porque suas formas no presente já não são mais as mesmas. As suas formas passadas não foram mudadas, elas eram o que foram. Não há como voltar no tempo e mudar. O que se pode e se deve fazer, é criar novas formas e sempre originais. Essa formação nova sempre irá desequilibrar o observador perante o fenômeno, pois buscando um equilíbrio precisará ordenar sempre a cada percepção.







Nenhum comentário:

Postar um comentário